Responsabilidade pessoal?

Ontem assisti aos 4 episódios da série “Máscaras não cairão automaticamente”, passado no Rio de Janeiro, no final dos anos 80 onde Nando, um comissário de bordo secretamente gay, ignora a epidemia de AIDS enquanto vive entre o glamour dos voos internacionais. Ao descobrir que tem HIV e que o principal medicamento, AZT, é proibido no país, ele decide contrabandear o medicamento, para uso próprio e para as “bichas pobres”, financiadas pelas ricas. Não é uma apologia ao tráfico de drogas, eles estavam realmente tentando salvar vidas.

Naquele período, o HIV foi estigmatizado como a “peste gay”, uma forma cruel de culpar as vítimas, ignorar os determinantes sociais e adiar políticas de prevenção e tratamento. Não havia campanhas educativas baseadas em ciência, mas sim propagandas que reforçavam o medo e a culpa. O AZT, primeiro medicamento que trouxe esperança, era proibido no Brasil, obrigando pacientes — como o personagem da série — a contrabandear o remédio para sobreviver.

Essa recusa em enxergar o HIV como problema coletivo custou vidas. Só quando figuras públicas, como Magic Johnson, vivo até hoje graças à medicação (a Big Pharma tb faz coisas boas!), declararam-se soropositivas, o mundo percebeu que ninguém estava imune. A transição da narrativa moralista para a compreensão da AIDS como crise de saúde pública mostra exatamente como ideologias moldam políticas e percepções.

Hoje, décadas depois, o enredo se repete, mas com outros protagonistas. A obesidade, o diabetes tipo 2 e as doenças metabólicas são tratadas como falhas individuais: preguiça, gula, falta de disciplina. A indústria alimentícia (Big Food) e a farmacêutica (Big Pharma) se beneficiam dessa narrativa. A primeira vende produtos ultraprocessados, viciantes e baratos; a segunda lucra com os medicamentos para tratar as consequências. Ambas se apoiam no discurso de “responsabilidade pessoal”, nascido nos anos 60 e herdado da indústria do Tabaco (que virou alimentícia), para lavar as mãos. Bom deixar claro, que não acredito que os executivos dessas indústrias sejam do mal, é simplesmente como o sistema funciona, não sendo uma culpa individual até porque os executivos que tentaram mudar alguma coisa e não conseguiram, como no caso da CEO da Pepsico Indra Nooyi, que criou uma linha menos tóxica de produtos, mas que flopou…

O problema da obesidade continua sendo tratado de maneira genérica (coma menos, treine mais, use medicações…), insistindo no balanço calórico, como se as calorias fossem iguais, leis cheias de lacunas amplamente dominadas pelos publicitários da área, permitindo publicidade “cinzenta” e a perpetuação da mensagem de que “açúcar é energia”. Esse reducionismo ignora décadas de ciência mostrando que as calorias não são iguais (e as “vazias” são as piores) , que o que foi feito na fábrica com o alimento importa e que tudo isso junto muda completamente o impacto metabólico das coisas.

(propaganda de produto lotado de açúcar, com cara de “energia” estrelado pela Rayssa Leal, atleta olímpica.)

Enquanto isso, as leis de publicidade permanecem cheias de brechas, permitindo que slogans ambíguos, como o clássico “açúcar é energia”, continuem circulando sem enfrentamento real. As indústrias se aproveitam desse terreno “cinzento” para associar ultraprocessados a saúde, felicidade e conveniência. Quando meu filho vê uma atleta olímpica que admira comendo uma porcaria dessa, ele pensa o que? E nós, pais, temos ferramentas para lutar contra isso? Uma em cada três crianças entre 5 e 9 anos no Brasil já está acima do peso, segundo dados de relatórios sobre direito à alimentação. Logo mais, é bem capaz, que a culpa da obesidade infantil seja vista como falha de caráter dos pais…

Mas, assim como na AIDS, há uma realidade que desmonta essa retórica: ninguém escolhe adoecer em um ambiente criado para nos fazer fracassar. Rótulos enganosos, desertos e pântanos alimentares, custo elevado da comida de verdade, publicidade direcionada a crianças. Os quatro pilares da verdadeira responsabilidade (conhecimento, acesso, acessibilidade e externalidades) não estão garantidos. Logo, falar em “escolha individual” é uma falácia.

Quem mais sofre com isso? A população de baixa renda. Diferente da parcela mais rica, que muitas vezes sim, escolhe se alimentar mal, os pobres vivem em desertos ou pântanos alimentares, que encontram comida de verdade cara e inacessível, e que ficam reféns da avalanche de produtos ultraprocessados baratos e agressivamente anunciados.

No fim, o discurso oficial sobre obesidade continua sendo uma versão atualizada da mesma lógica que marcou a epidemia de HIV nos anos 80: culpa do indivíduo, omissão do Estado, lucro da indústria.



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Mãe, corredora, comunicadora e nutricionista especializada em dietas de baixo carboidrato.

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