Tenho 42 anos e a primeira vez que entrei numa academia, para fazer 3 séries de 15 com pesinho colorido foi antes dos 20. Comecei a correr com 22, logo que minha 1a filha nasceu, claro, para emagrecer. A maioria de nós, que abandonou a “educação física” da escola e voltou a fazer atividade física mais fez, fez isso para emagrecer, né?
Pois bem, a busca por um corpo ideal começou cedo e sobrevive até os dias de hoje. Não posso falar que estou imunizada contra isso, embora tenha uma consciência maior/melhor do corpo que hábito, assim como seus limites e possibilidades. Entendi que jamais serei como as modelos dos anos 90, que eram a referência das mulheres da minha geração e talvez também um “ideal” de felicidade: as magras são mais felizes.
Disso, de certa forma, me libertei. Não tenho mais o intuito de vestir 36 (sou 38) nem acho mais bonito ossos aparecendo, como achava antigamente e poucas vezes consegui alcançar, sempre com alguma droga lícita / ilícita ou excesso de corrida + restrição calórica. Foi a vida toda isso aí. Comecei a fumar também porque era chique e porque diziam que emagrecia. Essa aí embaixo sou eu em 2006, na minha fase mais junkie e magra da vida 😦

Pois bem, toca para 2025. Muitas coisas já em seus devidos lugares, mas venho pensando bastante em como a internet de hoje, que nos expõe à todo tipo de realidade / imagem, tem mostrado um envelhecimento permeado de certa incompatibilidade. Demorei 20 anos para entender que jamais terei o corpo de uma modelo que mede 1,75 e pesa 50kg. Será que agora meu cérebro vai começar a entrar numas de querer o corpo de uma mulher de 50 / 60 musculosa e fibrada tipo bodybuilder?
Meu treino é muito sério, faço musculação pesada 4x por semana. Já evoluí para agachamento livre, terra, barra fixa, exercícios não recomendados até que haja alicerce e consciência do movimento para executá-los. Tipo, sei que não treino fofo. Diminuí bastante a corrida, para poder focar na força pois sei que para envelhecer bem meu corpo precisa mais disso do que de asfalto.
E me alimento muito bem, sei exatamente a quantidade de carboidrato que meu corpo tolera, assim como a quantidade de carnes/ovos/aves/peixes , matéria prima – junto do estímulo do treino – para construir músculos. Só que aí às vezes a internet me entrega uns conteúdos de mulheres até mais velhas do que eu, RASGADAS num nível de quem participa de competições de fisiculturismo, que eu nem duvido que treinem super sério, mas que diante do que sei sobre fisiologia da mulher, principalmente da mais velha, não fazem sentido.

Essa é a Dra Gabrielle Lyon, uma mulher admirável que advoga pela musculação e alimentação, com um corpo, que na minha opinião, é lindo. Porque sim, hoje em dia eu gosto muito dessa estética da força, mas sei que é muito raro (para não dizer impossível) que uma mulher de quase 50 anos fique assim só com treino e alimentação.O que não tem problema nenhum, já falei várias vezes que se em algum momento minha vida começar a ficar difícil por conta da transição hormonal / perimenopausa, eu vou fazer reposição hormonal. O recurso existe e a mulher tem todo o direito de usar.
Minha questão neste momento é: será que todas, que passamos décadas buscando magreza, deveríamos buscar uma extrema força e beleza estética quando mais velhas? Será que isso também não é parte do projeto que não nos deixa envelhecer em paz, buscando o melhor que podemos ser, dentro da nossa realidade?
É raro. Raro mesmo, pois hoje em dia eu me sinto feliz com meu crpo em 98% do tempo, mas às vezes acontece de olhar no espelho e me perguntar por que não sou mais fibrada / rasgada, mesmo treinando bem (veja, bem é diferente de muito) e comendo como um ser humano deve comer?
É um novo Mito da Beleza (livro que todas as mulheres deveriam ler) que vem sendo construído para dominar a mulher mais velha, que já sabe quem é, que já se sente poderosa, que já saiu de um casamento de merda, que já mudou de carreira. Uma nova busca infinita pra quem saiu de outras buscas? Que no fim, só é a mesma busca por juventude eterna travestida de wellness e agora com as infinitas possibilidades visuais da inteligência artificial.
Escrevo este texto ciente da minha participação neste “projeto”, eu mesma posto fotos do meu corpo como se fosse um objeto criado por treino e low carb. Que mesmo não sendo parecido com o da Dra Gabrielle, não deixa de ser um corpo “padrão” que muitas mulheres, ainda mais distantes do corpo fibrado, desejam.
Acho que só faço isso com certa paz de espírito porque, realmente, meus resultados, por hora, são alcançados com ferramentas que a grande maioria das mulheres tem nas mãos, ou se não tem, pelo menos na parte da alimentação posso dar uma luz. Não porque seja detentora de toda a verdade universal sobre o que é comer bem, mas por saber razoavelmente bem sobre o que nos afasta da arte de comer bem. Pelo menos comigo foi assim, quando entendi o que não comer, a vida mudou.

Eu quero e vou continuar fazendo o que acredito que tem que ser feito para envelhecer bem e me sentindo bonita, mas me recuso à abraçar este novo ideal como meta. Não quero passar a outra metade da minha vida buscando um corpo que não existe. Ainda tenho muitos livros para ler, lugares para conhecer, dinheiro para fazer, criança para criar.
Fazer dieta e se matar de treinar, do livro Mito da Beleza e adaptado por mim, são nosso maior sedativo político e perda de vida. O que tenho feito para não cair nessa armadilha? Principalmente não mergulhar em feed de instagram, não ter TikTok, não ficar me olhando no espelho procurando defeitos, me conectar on e offline com mulher de realidade parecida com a minha, que treinam e comem bem mas que continuam tendo corpo de mulher, não esse baixíssimo percentual de gordura que é muito mais dos homens do que nosso.
E você, o que tem feito?







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