O que eu li antes de viajar

PARTE 1

Estava ouvindo um podcast com o cientista político André Lajst e ele fala que, num mundo polarizado, a melhor maneira de aprender sobre tudo, política ou não, é ter o pensamento livre. Não buscar estudar com cartilhas e sim escolher um assunto e ir mergulhando. Foi isso que fiz.

Como tinha pouco tempo, não consegui mergulhar tão profundamente. A primeira coisa que busquei foi sobre o ataque do 7 de outubro de 2023, inclusive foi aí que conheci o André e passei a escutá-lo todos os dias, entendendo que era mais complexo do que eu imaginava. Apesar de ser judeu e com raízes israelenses, ele não passa pano para todas as decisões de Israel, por exemplo, reconhecendo (por conta e risco) que pode ter havido falhas de inteligência na prevenção do ataque, já que existiam alertas prévios que não foram devidamente considerados.

André conta, inclusive, que Israel pode ter falhado em evitar o ataque, já que foi avisado por algumas pessoas. Também comenta decisões controversas tomadas durante o conflito, como a suspensão temporária do envio de ajuda humanitária, pois parte dos caminhões estaria sendo interceptada pelo Hamas e os alimentos, que seriam de graça, revendidos para a população palestina. Lembrando que é difícil saber o que realmente acontece em Gaza, que não possui imprensa livre e independente como em democracias ocidentais, o que dificulta a verificação externa dos fatos. Ao mesmo tempo, Israel é uma democracia com imprensa ativa e crítica interna constante, o que não elimina erros, mas cria dinâmicas muito diferentes de circulação de informação.

Não podemos negar que o Oriente Médio é um tabuleiro instável. Mas talvez não por ser “a terra prometida” em si, e sim porque ali se cruzam impérios antigos, religiões fundadoras, fronteiras traçadas por potências estrangeiras e disputas nacionais que nunca foram plenamente resolvidas. Isso eu aprendi lendo este livro do Ali Kamel, que é antigo, mas traz muita coisa que não mudou e (provavelmente) nunca vai mudar. No livro, Ali propõe uma análise histórica e cultural do Islã, tentando separar a religião em si das manifestações extremistas que ganharam visibilidade nas últimas décadas.

Os pontos centrais da obra são:

  • O Islã compartilha raízes profundas com o judaísmo e o cristianismo. São religiões abraâmicas, com textos, profetas e estruturas morais semelhantes.
  • A associação automática entre Islã e terrorismo seria uma simplificação alimentada por grupos radicais minoritários e pela cobertura midiática.
  • O autor reconhece problemas contemporâneos dentro de sociedades islâmicas, como misoginia e autoritarismo em certos contextos, mas argumenta que esses fenômenos não definem a essência da religião.
  • Ele tenta mostrar como fatores políticos, coloniais e geopolíticos contribuíram para o surgimento do terrorismo moderno.

E a gente sabe, gente louca, babaca e radical existe em todos os grupos e o que essas pessoas fazem não podem definir o que é o grupo em si. Quando estava em Jerusalém vi um grupo de uns 30 meninos jovens Judeus abraçados, dançando e cantando…na frente dos árabes, à troco de que? NADA. Tudo bem que jovem é tudo babaca mesmo, me deu até vontade de perguntar cade a mãe desse povo pra dar um cacete, mas é isso: não é a maioria. Todos os muçulmanos são terroristas? Não. Todos os Judeus são babacas? Não. Todos os cristão são assassinos? Não. Mas dentro dos grupos existe gente ruim.

Tem muitas pessoas melhores do que eu para explicar este assunto, o próprio André Lajst, o Guga Chacra. Então, meu objetivo aqui nem é ficar falando de geopolítica porque, embora hoje entenda um pouco mais do que a maioria, estou longe de saber tudo. Só sei o suficiente pra dizer que simplificar essa história em vilões absolutos e heróis perfeitos é confortável, mas perigoso e intelectualmente preguiçoso. A realidade é mais dura, mais trágica e mais complexa. E talvez o maior aprendizado não seja escolher um lado às cegas, mas aprender a sustentar a complexidade sem abrir mão da humanidade.

Eu seria leviana em vir na internet falar que não tenho viés (inclinação ou tendência prévia que influencia a forma como percebemos, interpretamos e julgamos informações.) Essa foi uma viagem com o Ministério do Turismo de Israel, com o objetivo claro de mostrar aos brasileiros que o país é lindo e seguro. Então sim, existe um contexto, uma intenção e um enquadramento. O problema não é ter viés, até porque isso faz parte da condição humana. O problema é quando ele nos faz distorcer os fatos e agir em desacordo com a própria ética.

Fui correr em Israel sob um convite institucional, mas também fui com curiosidade intelectual, senso crítico e comprometida a não fechar os olhos para a complexidade do que vi e do que estudei. Transparência é o mínimo que devo a quem me acompanha.

Para quem se interessa pelo assunto, minha sugestão é ir atrás. Sair do que é divulgado no Instagram, até porque sabemos que tem uma grana pesada patrocinando certo tipo de informação sobre as questões do Oriente Médio. Então a melhor coisa a se fazer é conhecer a história.

No próximo texto conto sobre os outros livros.

*A foto de destaque deste post sou eu na divisa entre Israel e Jordânia, no Vale do Sodoma.

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Mãe, corredora, comunicadora e nutricionista especializada em dietas de baixo carboidrato.

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