Corrida é coisa de rico?

Comecei a correr em meados de 2006 e já presenciei alguns “booms da corrida” como este que acontece agora, onde supostamente milhares de novos corredores estão por aí, de Strava ligado, riscando as ruas das cidades.

Não estudo comportamento nem li as pesquisas realizadas pelas marcas, o que sei é o que vejo nos meus treinos, nos eventos de corrida que passam aqui embaixo da minha janela (moro na marginal pinheiros) e não sei se realmente tem mais gente correndo. Tomara que sim, principalmente jovens, pois acredito que corrida molda caráter e apesar de ter me tirado um pouco o foco da vida profissional dos meus 20 e poucos aos 30 e poucos, construí muita coisa legal que carrego comigo até hoje, inclusive uma audiência na internet 🙂

O que vejo muito nos meus treinos por aí e nas pesquisas de campo (e de internet) é que tem muita gente gastando muito dinheiro com artigos esportivos, o que seria maravilhoso se vivêssemos num país onde todo mundo ganha bem e pode investir no próprio lazer. Não que eu ache que um tênis de R$2,399,00 seja essencial, mas no mundo perfeito, seria legal se todo mundo pudesse correr suas competições com um desses, né? Afinal eles realmente nos ajudam neste tipo de situação.

Como disse anteriormente, não tenho estudo comportamento de consumo então tudo que falo são vozes da minha cabeça e da minha vivência nessas quase 2 décadas de corrida, sendo que em metade delas eu ganhava todo tipo de tênis, roupas e viagens – sendo assim, era uma outra perspectiva e raramente eu para para pensar nas consequências de vir na internet incentivar a compra de produtos.

Tudo bem que eles nunca foram tão caros, os super tênis são um “fenômeno” recente, desde 2017 quando a Nike lançou o 4% e o desafio da maratona abaixo de 2h de Kipchoge. Antes disso um tênis topo de linha custava no máximo R$1.000 o que é muito dinheiro, mas né…? Era possível encontrar modelos de R$300 / R$400 principalmente edições anteriores.

Realmente cada um faz o que quer com seu dinheiro, mas se a gente pensar que uma pessoa que ganha R$24.000,00 comeria 10% de seu salário pagando por um único par de tênis, que provavelmente descolaria em menos de 2 anos. E que a média de pessoas que ganha R$24.000,00 é de 1% , acho que vale à pena discorrer sobre esse assunto e conversar sobre a real necessidade disso ou a necessidade de parecer corredor de elite (que é o equivalente à parece rico fora da corrida).

Hoje, pagando pelos meus próprios tênis, me sinto à vontade de falar sobre dinheiro e mais do que isso: depois de anos te influenciando a comprar coisas de corrida, tenho a obrigação de vir aqui te influenciar a pensar antes de comprar essas coisas. Tem uns 5 anos que minha vida profissional deu uma bela virada e finalmente consegui começar a fazer…e guardar dinheiro. Coisa que nós mulheres não somos muito bem ensinadas a fazer, já que a manutenção da nossa existência por si só já é cara. Eu que fui mãe cedo então…nunca deu para guardar nada.

Como diz Michel Alcoforado em “Coisa de Rico”, somos ensinadas que dinheiro é sujo (“filha lave as mãos depois de pegar em dinheiro”) e que é um assunto que não se fala. Diferentemente na cultura americana, o dinheiro está presente até na linguagem cotidiana. Expressões como “my two cents” usada para compartilhar uma opinião, revelam como até ideias são tratadas como algo com valor, ainda que simbólico. Já “pay attention”, que literalmente significa “pagar atenção”, mostra que tempo e foco são vistos como moedas de troca, investimentos que você faz em algo ou alguém. Enquanto isso, em português, a gente “presta atenção” ou “dá opinião”, sem associar diretamente essas ações a valor.

A gente precisa falar de dinheiro! Eu não tô nem aí pra quem vai dizer que cada um faz o que quer com seu próprio dinheiro, pois são as mesmas pessoas que acreditam em meritocracia, como se todos tivessem a mesma oportunidade e possibilidade de fazer o que quiser com o próprio dinheiro. Falar de dinheiro não é feio, é ferramenta de liberdade, destrinchar a realidade e entender por que algumas pessoas prosperam e outras vivem no limite, mesmo trabalhando até mais.

Como corredora e não mais parceira de ninguém nem vendedora de nada, o que eu puder fazer para mostrar que esses produtos não são essenciais para uma pessoa correr bem e feliz, o farei. A indústria fitness criou uma dependência que nunca existiu, tem muita gente acreditando que sem gel, tênis de 2mil reais ou whey sabor cheesecake, não dá pra ser corredora. Vir aqui mostrar o que é sim é possível fazer um ótimo treino ou até uma corridinha safada sem tênis caro, sem gel e sem suplementos pós treino é meu jeitinho de devolver pra sociedade tudo que a corrida já me deu.

Eu também tenho meu delírios de consumo. Assim como muita gente tem problema com comida, tem dia que meu cérebro fica falando pra gastar dinheiro. Outro dia quase comprei uma bolsa de R$14 mil reais, o que com certeza de faria acordar deprimida no dia seguinte (igual o pós de quem tem crise de compulsão alimentar). O que tento fazer hoje é REdirecionar este impulso. Vou escutar um podcast da Nathalia Arcuri, vou comprar uns temperos ou livros, que não deixam de ser compras mas com menos impacto e por aí vai.

Gente, não dá pra gente fingir naturalidade diante do absurdo que virou o consumo de corrida e pior: muita gente nem tá correndo mais ou melhor usando esses produtos. Então tenhamos senso crítico e respeito com nosso dinheiro. Não pensem que acabei por aqui, pois este assunto tem muitos desdobramentos que precisam ser destrinchados!

5 respostas para “Corrida é coisa de rico?”.

  1. Avatar de Karina
    Karina

    comecei a correr em meados de 2011/2012 e como fui criada por uma mãe que me ensinou sempre a economizar dinheiro, apesar de ver as coisas e querer , nao me deixo levar, sempre pensei muito antes de gastar, as vezes, me chamam de carguinha.

    Eu me chamo rs… e apesar de seguir muita gente no mundo na corrida , até você , das poucas que restou , deletei tudo, comecei a ficar de saco cheio desse mundo da corrida. E nunca paguei mais do que R$600 num tênis e só tenho um tênis de R$600. sempre junto em dinheiro , acho que isso é fundamental de ser colocado na cabeça de toda mulher, toda pessoa, eu cresci assim , tem que ensinar a mulher jovem , a criança, a guardar dinheiro . Não vejo necessidade , não preciso, colocar esses pensamentos na cabeça . Acho, que as pessoas se perdem muito achando que porque tem isso , tenho aquilo vão poder ser melhor . OK tem coisas que na aparência te tornam ali no nível parecido , são investimentos, mas tem que pensar antes. Outra coisa que percebo, ando vendo ao meu redor , é que quem tem dinheiro sempre está querendo mais dinheiro, juntando mais dinheiro e quem não tem , às vezes , reclama, mas fica ali encostado. fiz curso de cabala há dois anos e cabala fala muito sobre o dinheiro dá valor ao dinheiro o dinheiro não é sujo o dinheiro é importante na nossa vida dinheiro gira o mundo não é pra ter vergonha de falar sobre dinheiro as pessoas tem que pagar conta enfim as pessoas têm que viver agora realmente esse mundo da corrida eu vejo cada coisa bizarra o pessoal gasta mesmo e acha que tá né arrasando enfim sei lá cada um com seu cada um mas tem gente que não está correndo nada é só por causa da fanfarra do estilo das roupas está meio colorido olha aqui eu vejo muito isso. Como você fala cada um faz o que quiser com seu dinheiro mas presto muita atenção no meu$$

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  2. Avatar de Juliana Bable Dias Sabino

    Reflexão excelente e muito necessária!
    Obrigada, Paula!

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  3. Avatar de MARIA DOMITILLA BORGES HADADE
    MARIA DOMITILLA BORGES HADADE

    Belíssimo texto!!! O que eu vejo hoje é realmente um preço exorbitante dos equipamentos de esporte…e se for ver em “dinheiros” (sem pensar em cotação) mesmo assim é exorbitante num lugar custar 180 dinheiros (euro) num outro 230 dinheiros (dolar) e aqui custa 2400 dinheiros…Infelizmente o custo BigMac é real….E, o principal, as pessoas PRECISAM QUE OS OUTROS VEJAM O QUE ELAS TEM/SÃO…casa sem reboco, mas o iPhone é do ano…nunca vai fazer sentido pra mim…

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  4. Avatar de crismarinhof6813b7bf5
    crismarinhof6813b7bf5

    Não tem como, nós , que corremos há mais tempo, nã ficarmmos chocadas com o consumismo desenfreado que tá acontecendo na corrida. Achei super certeira sua frase “…a necessidade de parecer corredor de elite (que é o equivalente à parece rico fora da corrida)”. Porque sim, é exatamente isso: No final da Maratona do Rio, estava confraternizanado com a galera, e assistindo de longe o pessoal chegando com mais de 4:30…5hrs de prova…vários com o tênis de 2mil do patrocinador. Que de NADA adianta para quem tem um pace acima de 4:30 (e quem faz mara para mais de 4horas tá longe disso)…ou seja, querendo ostentar o que não tem (velocidade). Literalmente rasgando dinheiro. E as marcas continuam indecentemente fomentando isso. É preciso falar sobre isso. É preciso trazer esses debates. Que sua voz chegue a muito mais pessoas. Que esse movimento cresça e mostre que tênis de placa e camiseta de 10gramas são necessários para poucos, muito poucos…

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  5. Avatar de Tamires Jerônimo
    Tamires Jerônimo

    Uma ótima reflexão. Tudo muito caro, muitas vezes desnecessário e aqueles que começam a correr se vem bombardeados por produtos de corrida. E dá muito sentimento de impotência, de se achar inferior por não ter condições de pagar. E quando pedimos dicas de tênis vão logo indicando X tênis com valor muito longe da realidade da pessoa e não nos trás boas opções que farão o mesmo que o outro tão caro. Não nos dão acesso a informações que são boas e alcançável.

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Mãe, corredora, comunicadora e nutricionista especializada em dietas de baixo carboidrato.

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