O bode da corrida

Sempre ouço alguém dizer que está de bode da corrida, ou que passou um período de saco cheio sem vontade de correr e me coloquei a pensar por que será que isso acontece?

Sem dúvida alguma existem fatores externos, mas me interesso mais em pensar sobre os internos, sobre como nossa relação com a corrida impacta no corpo e na mente, e como talvez o bode seja um sinal de que algo dentro de nós não esteja bem.

Nossos ancestrais não faziam atividade física em alta frequência cardíaca, isso é sabido. Eles corriam, se mexiam, faziam diversas atividades mas nosso organismo não evoluiu treinando do jeito que fazemos hoje. Ok, somos apaixonados pelo esporte e suas recompensas ligadas ao prazer, mas às vezes a paixão é tão grande que temos dificuldade em avaliar racionalmente o que acontece com nosso corpo vivendo em “chronic cardio”.

Nossos ancestrais caçadores-coletores não aumentavam seus batimentos cardíacos acima de 80% por mais de uma hora todos os dias, como nós fazemos. Essa prática é chamada de chronic cardio. Diferente de hoje, eles caminhavam com um nível de esforço muito baixo, queimando quase que só as gorduras armazenadas e estamos carecas de saber que quando entramos em zonas onde menos gordura é queimada e onde há uma grande dependência da glicose para alimentar os músculos, nosso corpo entra em um modo menos eficiente de oxidação do combustível. Queimar glicose tem um custo metabólico muito mais alto!

Nós que fazemos Low Carb e temos uma flexibilidade metabólica que torna essa queima mais eficiente, já que nosso corpo vive com baixos estoques de glicogênio e está sempre usando gorduras como fonte de energia. O que nos protege muito, mas não nos exime de outros impactos do chronic cardio. Infelizmente essa eficiência no uso dos combustíveis não acontece com quem não tem a flexibilidade, por isso as dependências do carboidrato e a constante exposição ao hormônio insulina, que como falei, tem um custo alto. Lidar com excesso de glicose e insulina devasta nosso organismo, e inclusive é pano de fundo de muitas doenças…

O “chronic cardio” além de elevar os níveis de glicose / insulina (de quem não tem flexibilidade metabólica), eleva tb os níveis de cortisol, aumenta o stress oxidativo, a inflamação sistêmica, deprime o sistema imunológico e diminui o metabolismo da gordura. A única coisa boa de tanto cardio é melhorar a força do músculo cardíaco, mas às custas de outras “pioras” e também é algo que se perde rapidamente.

Na ancestralidade, os homens e mulheres só davam um gás para fugir dos predadores, ou para caçar…a maioria de suas atividades eram em baixa intensidade. Então, podemos entender que nosso organismo evoluiu neste contexto, o que tb nos leva questionar se nos afastarmos disso não seria prejudicial e anti-homeostático (equilíbrio interno do organismo).

Estou levantando essa questão, de que treinar muito e em altas intensidades é anti-natural, porque foi quando entendi isso e comecei a respeitar os descansos e períodos entre um objetivo e outro que nunca mais tive bode da corrida. Claro que essa é uma experiência pessoal e muitas outras coisas estão envolvidas, mas quando comecei a estudar low carb – que nada mais é do que comer o mais próximo possível de como nossos ancestrais comiam – fui estudando também outras coisas que costumamos fazer muito diferente deles e de nosso contexto evolutivo.

Foi aí que caí no padrão da atividade física e entendi que nosso padrão de treino intenso e constante nos fazer ativar mecanismos internos que foram criados pela natureza para outras finalidades. Estudando sobre atividade física e longevidade, entendi que os benefícios do exercício em zonas de intensidade mais baixa do que aquela que costumamos treinar são muitos e os riscos mínimos.

As zonas menos intensas são onde queimamos gordura corporal, aumentamos a rede capilar, diminuímos a pressão arterial e reduzimos o risco de doenças degenerativas, incluindo doenças cardíacas. Claro que as zonas mais intensas, o chama ANAERÓBICO, é importante! Principalmente quando falamos em melhorar a performance na corrida e construção de massa magra. Adicione a essa rotina alguns exercícios anaeróbicos de “intervalo” uma ou duas vezes por semana. Além disso eles também aumentam nossa capacidade aeróbica, a produção natural de hormônio do crescimento e melhoram a sensibilidade à insulina.

Os treinos fortes sempre terão impactos, mas se eles forem pontuais e estratégicos o preço não fica tão alto. Se o sono estiver legal, o stress controlado, a alimentação limpa e a “manutenção da felicidade” em dia conseguimos levar esses períodos sem grandes consequências, mas acredito cada vez mais que precisam realmente ser períodos, pois ficar cronicamente num nível louco de treinos ao que parece, não vai dar certo – uma hora a conta chega.

Eu também amo competir, meter um número de peito, treinar com gosto de sangue na boca e correr maratonas rápidas, mas aos 38 anos não posso não pensar no envelhecimento e infelizmente o treinamento crônico de alto nível não é a melhor maneira de envelhecer saudável.

Essa foi só uma reflexão sobre o bode da corrida talvez ser um mecanismo do nosso corpo de nos avisar que algo não está legal. Assim como a nutrição nos ensinou equivocadamente a comer de 3 em 3 horas, criando uma geração de pessoas superalimentadas, as diretrizes sobre atividade física também nos ensinaram que precisamos de 45 minutos a 1h por dia de atividade aeróbica intensa, criando uma geração de ansiosos supertreinados, cansados, lesionados e com o sistema imunológico comprometido.

Ambas as diretrizes ignoram nosso passado evolutivo e nosso projeto genético, a simples explicação do por que tudo isso não deu certo…e talvez do por que do seu bode. Não seria melhor tentar nos aproximar de como nossos ancestrais viviam, claro, levando em consideração o contexto de vida atual…?

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